Cap.2: Amigas!
O tempo foi passando e fomos crescendo. Acabei me tornando muito próxima
de Julie.
Ainda me pergunto se ofereci uma amizade saudável para ela. Já que Li
era espontânea e sempre sorridente, principalmente nas horas inconvenientes.
Li sorria de você, mesmo que você tivesse tomado o maior tombo da sua
vida e sofresse traumatismo craniano. Li, por vezes sorria da própria desgraça.
Eu me questionava: Como alguém pode ser tão idiota a tal ponto? Li
conseguia.
E eu, Sofi, com meu hábito de achar que sabia tudo sobre tudo e todos,
achei que Julie precisava de alguns ajustes, então resolvi mudá-la.
Meu pai me ensinava sempre a ser culta e me comportar da melhor forma,
em todos os lugares e nunca ficar rindo de coisas idiotas, pois se o fizesse seria
tão idiota quanto os outros. Eu deveria estar sempre a um passo dos outros.
Inclusive, meu pai me aconselhou a adotá-la como um projeto para saber
até onde iam as minhas habilidades. Papai sempre apostou muito em mim, só que
isso vinha carregado de muitas cobranças.
Papai me amava, e queria que eu fosse a melhor em tudo. Então, me
colocou nas melhores escolas que podia pagar, e exigia que eu me dedicasse ao
máximo, e isso acabou se tornando um hábito em minha vida.
Me tornei extremamente perfeccionista. Algumas vezes, olhando do meu
presente para esse meu passado, eu era extremamente prepotente. E quando Julie
ia mal em suas avaliações, eu acreditava piamente que aquilo devia-se a falta
de disciplina e concentração dela, e ainda da falta de dedicação. Ou seja,
Julie merecia.
Muito bem, sem mais delongas, vamos para nossos dias de escola.
- Oi, Sofiiii.
- Olá, Julie.
- Tenho uma notícia muito boa. Adivinha.
- Não faço ideia.
- Tirei sete na prova de matemática.
-Julie, eu tirei dez. Acho que a prova estava muito fácil.
- Mas, eu estudei tanto. Acho que a prova não era tão fácil assim. Disse
Julie entristecida.
Acabei tirando, naquele momento, os méritos por algo que ela tanto se
esforçou e veio tão entusiasmada me contar.
Mas, uma característica em Julie, era não magoar seus amigos, enfrentava
professores quando discordava de um determinado assunto, mas nunca de sua
opinião formada, apenas de fatos que para mim eram inquestionáveis, já que
estava nos livros de história, caramba. Para não enfrentar os amigos, preferia
se magoar e deixar que dissessem o que queria.
Na tentativa de ajudar Julie com suas notas e fazer dela meu projeto de
fracasso para sucesso, fiz uma proposta:
- Julie, todos os dias após as aulas, eu vou para minha casa, e lá vou
estudar todo o conteúdo passado e ver mais coisas na internet. Por que não faz
o mesmo?
- Sofi, você não se diverte nunca?
- Não é disso que estamos falando. Falei isso ajustando meus óculos.
Aquilo me incomodou, de certa forma.
- Bem, eu já faço algo parecido. Mas, não consigo entender muita coisa.
Me desconcentro facilmente na escola, imagina em casa sem professor.
- Precisa ter foco. Além do mais, acho que não se esforça tanto.
Impossível! Se se esforçasse suas notas seriam melhores.
- Como eu disse, faço algo parecido, mas não tenho internet em casa. E
não tenho computador.
- Vamos fazer o seguinte, vamos estudar na biblioteca. Vou falar com
meus pais e você fala com os seus. Quero saber se não vamos melhorar suas notas
e seu comportamento inadequado.
E assim foi, todos os dias por meses obriguei Li a ficar na biblioteca
comigo.
Foram dias bem intensos para duas garotas de treze anos.
Conhecemos Luana, mão de Giovanna, nossa colega. Luana trabalhava na
biblioteca e sempre nos observava.
Enfim, chegaram as primeiras provas depois de termos começado a estudar
na biblioteca. Quando terminou tudo, eu estava certa de que ela iria muito bem.
Fui para a biblioteca esperar Li para saber os resultados, já que ela
meio que fugiu de mim na escola.
- Julie, me conta como foi nas provas. Aposto que desde que começou a se
esforçar verdadeiramente, elas subiram muito.
Li me olhou triste e começou a chorar. Me assustei um pouco e pedi que
ela parasse.
- Não precisa ficar chorando. Chorar é coisa de gente fraca. Ainda mais
em público. Falei isso em tom de brincadeira.
- Sabe, Sofi, eu realmente admiro você e seu esforço por mim. Eu a
considero minha melhor amiga. Eu agradeço tudo que fez, mas minhas notas foram
tão baixas ou medianas como sempre. Não importa o que eu faça, não passo de um
mísero sete, seis, ou até menos.
Continuou:
- Eu, apesar de você duvidar, realmente me esforçava antes, dentro dos
meus limites de materiais. Eu olhava livros e algumas vezes vinha para a
biblioteca, mas você duvidou de mim e parecia tão empenhada em me ajudar que
resolvi aceitar.
Eu tenho um sonho de melhorar na escola, de alcançar o sucesso através
de muito esforço, sonho em continuar nessa escola com a bolsa que consegui. Mas
está muito complicado. Toda noite, antes de dormir, fico contando histórias na
minha cabeça de meninas que eram como eu e conseguiram vencer suas limitações,
mas eu não consigo. Não vou desistir, eu nunca desisto, mas, você não precisa
gastar seu tempo comigo.
Eu nunca tinha visto Li daquela maneira, ela abriu a boca e falou tudo
tão seriamente, ela nunca tinha se defendido daquela maneira. Li que sempre
sorria de si, estava ali chorando. Me senti envergonhada por duvidar dela. Eu
não sabia o que fazer, Li estava chorando de cabeça baixa e eu do outro lado da
mesa olhando para ela sem reação, quando de repente Luana, que era
psicopedagoga se aproximou e tentou acalmar Li. Perguntou o que havia
acontecido e contamos tudo. Ela pegou em sua mão e a levou consigo me pedindo
para aguardar um pouco. Logo depois saíram as duas.
Li não me contou nada, fez um mistério terrível.
Um bom tempo passou desde o ocorrido e enfim descobri o objetivo da
conversa.
Li passou por exames e foi diagnosticada com déficit de atenção.
Eis os motivos da desatenção da menina. Quem diria? Outro tapa no meio
da minha cara. Mas como eu poderia saber?
Desde que Julie começou seus tratamentos, houve uma evolução
significativa em suas notas. Mas, nunca deixou seu comportamento super animado
e extrovertido.
Comecei a acreditar que aquilo era parte de sua personalidade, e isso
ainda não me agradava. Ela tinha que começar a se comportar mais como uma
mocinha.
Estávamos crescendo, e não podia continuar daquele jeito.
Os anos foram passando. Mesmo ainda diferente, Li e eu nos tornamos
grandes amigas.
Eu conheci os pais de Julie, aprendi sobre sua família, e ela conheceu
os meus pais.
Julie e eu sempre estudávamos juntas. Todos os trabalhos em dupla, já
nem tentavam mais fazer comigo ou com ela, pois todos sabíamos que erámos
inseparáveis.
Acredito que eu tenha ajudado muito Julie, mas era impossível não
reconhecer o quanto ela me ajudou.
Vê-la lutar por seus sonhos por mais inalcançáveis que fosse, me
ensinava que nem tudo era fácil para todos.
Ver Li, há dois anos, descobrir que o que tinha não era falta de
interesse, ou falta de disciplina por pura falta de educação, e sim por ter
déficit de atenção, me ensinou a não criar um pré-julgamento, antes de saber de
tudo o que realmente acontecia. Quer dizer, eu ainda fazia isso. Mas, ela
sempre estava ali me passando os ensinamentos de seu pai.
Saiamos todos os dias da aula juntas, estudávamos, mas sempre no fim do
dia, íamos correndo para o nosso lugar preferido que ficava em um lago.
Lá conversávamos sobre tudo.
O quanto amávamos nossos pais, falávamos mal de algumas garotas que nos
irritavam (Alana), e falávamos dos garotos (eu falava de Alan), afinal já
tínhamos quinze anos.
Comentávamos dos dias difíceis de Li na escola, e o quanto tinha
melhorado.
- Sofi. Estava aqui pensando: Acho que Alan gosta de você.
- V- você acha?
- Tenho certeza.
- Mas por que ele não fala comigo?
- Não sei, talvez seja tímido. E seu pai chega a dar medo até em mim que
sou sua amiga.
- Mas, acho que meu pai não se importaria. Eu conheço Alan há anos. Mas
se ele quiser me namorar vai ter que chegar em mim.
- E se ele chegar? Você vai aceitar?
- Sim. Por que não?
- Acho que deveria falar com seus pais antes.
- Eu já tenho quinze anos, não preciso disso.
- Você deveria. Seu pai já acha que sou uma péssima companhia por eu ser
assim meio louca e ter amigos meninos. Ele já falou que meu pai não é duro o
suficiente comigo. E mais, ele acha que o motivo de você ter se tornado tão
mais independente, é culpa minha. Se bem que não vejo problema nenhum nessa
última parte.
- Bem, acho que ele só quer meu bem. E realmente a última parte é culpa
sua.
Rimos daquilo. Nossas tardes eram muito prazerosas, e nossas conversas
muito gostosa.
Àquela altura eu já tinha celular que meus pais me deram, todos os
nossos colegas também tinham, e Li não tinha, pois seus pais não tinha
condições suficiente.
E por tal motivo, alguns à esnobavam, e um dia vi alguém falar mal dela
por ser pobre e pela casa que morava ser tão simples. Falavam de seus pais se
vestirem de maneira tão simples nas reuniões do colégio, enquanto os outros iam
tão bem arrumados.
Eu ouvi, mas não tive coragem de falar nada. Nesse exato momento, Li
chegou, fiquei envergonhada, pois ela sempre me defendia quando necessário, e
eu estava ali muda.
- Li! Disseram todos assustados. Na rodinha estavam Milena, nossa colega
de classe, Alana (Lider da fofoca toda), Valentina, outra colega, e Giovanna
que estava tão calada quanto eu.
- Por que vocês gostam tanto de julgar as pessoas pelo que elas têm ou a
forma que se vestem? Saibam que apesar de não sermos ricos, somos muito
honestos e aprendemos a amar as pessoas pelo que são.
Acima de tudo, meus pais me amam muito, são realmente as melhores
pessoas que conheço. Se vocês querem falar de mim, podem falar, mas não falem
deles.
Li saiu, Giovanna e eu corremos atrás dela. Ela havia realmente ficado
triste e pela segunda vez, á vi chorar.
Julie amava os pais, e valorizava sentimentos acima de coisas.
E essa foi a segunda lição, que mais tarde eu viria a aprender com ela.
Mas, não ainda.
- Sofi, Gio. Por que vocês estavam com elas? Vocês também pensam igual?
- Não! Respondemos ambas assustadas.
Com um sorriso amoroso que consegui ver apenas em pouquíssimas pessoas,
Li nos olhou e disse:
- Sabe, não tem problema. Eu ainda não havia contado. Mas todas as
tarde, eu tenho ido trabalhar na casa da minha vizinha cuidando do bebê dela
para conseguir dinheiro para comprar um celular para ninguém julgar meus pais,
e é por isso que não tenho ido estudar com você essa semana. Mas eu gostaria
que fosse surpresa.
Finalmente chegou agosto, e era o aniversário de Julie de dezesseis anos
e de repente quando Li chegou em casa no fim do dia:
- Surpresa! Disseram os pais dela com uma caixa pequena na mão.
- Não acredito, falou Li escondendo também a pequena caixa que tinha nas
mãos.
Os pais dela haviam dado um duro para comprar um celular que a filha
tanto desejava. Mas, Li havia se dado também um aparelho.
Li demonstrou infinita gratidão aos pais, declarou em lágrimas o quanto
os amava.
No dia seguinte me contou o que havia acontecido:
- Mas, o que fará com o que você comprou?
- Vou vender e fazer uma coisa por eles que há muito tempo gostaria de
fazer. Não o que exatamente gostaria, mas uma amostra.
- Que seria?
- Isso é surpresa.
- Mas, ainda bem que você tem ideia do que fazer, já que trabalhou
escondido de seus pais, seria um sacrifício jogado fora.
Os pais de Li não queriam que ela trabalhasse fora ainda, pois gostariam
que ela se dedicasse exclusivamente aos seus estudos, então Li trabalhava
escondido, e sua vizinha a ajudou guardando segredo. Mas, era por uma boa causa
e isso não vinha prejudicando Li.
Um belo dia Alan me chamou para dar uma volta após as aulas, mas, disse
que eu precisava falar com meus pais antes para não haver problemas.
Por um instante senti medo de eles não deixarem, e mais, eu já estava
grandinha, e não deixaria meus pais estragarem a oportunidade que eu tanto
havia esperado. Então apenas fingi ligar.
Levei Alan para onde Li e eu costumava ir quando ela não trabalhava e
ainda íamos no fim de semana.
Mesmo muito nervosa por estar com o menino que eu amava, eu me sentia
segura, pois já o conhecia há anos.
Passamos a tarde por lá e conversamos muito, até que de repente:
- Sofi.
- Alan! Olhei para Alan que se aproximara de mim timidamente.
- Você sabia que gosto muito de você?
- Sim! Somos amigos, não é? Fiz-me de desentendida.
- Gosto de outra maneira também.
- Engraçado, achei que gostasse de Alana.
Alan riu entendendo meu sarcasmo.
Aproximou-se ainda mais de mim, e finalmente aconteceu... Não acreditei!
Finalmente meu primeiro beijo!
Coração a mil. Mas, naquele exato momento nos desequilibramos e caímos
do galho que estávamos sentados que atravessava o pequeno lago.
Alan caiu na água, e eu acabei caindo sobre um galho e fraturei meu
braço.
Alan entrou em pânico, e me levou ao médico, mas precisávamos de algum
adulto. Chamamos a mãe de Alan que nos ajudou, porém ainda precisávamos contar
para meus pais.
E agora? Como eu poderia contar para meus pais o que havia acontecido?
Que eu havia saído sem permissão, e ainda com um menino Era para tudo
dar certo, meus pais chegariam no fim do dia e eu estaria em casa
tranquilamente.
Seria meu fim? O que eu diria? A verdade? Certamente que não.
Já sabia a quem recorrer. Liguei para minha melhor amiga sem pensar duas
vezes.
- “Você acha uma boa ideia? Estou disposta a te ajudar, mas mentir não é
a melhor saída."
- Poxa, Li. Me ajuda. Você sabe que eu estava proibida de ir ao lago, e
ainda mais assim, com um menino.
Sempre disposta a fazer tudo por seus amigos, Julie concordou.
Mas, antes não tivesse concordado com minha ideia.
- Filha! O que houve com você? Perguntou minha mãe preocupada.
- Eu estava estudando com Julie, e eu... ela...
- Fale filha! Disse meu pai alterado.
- Ela me chamou para irmos ao parque. Mas, lá ela subiu em um banco,
você sabe com ela é. E pulou em cima de mim. Eu caí de mal jeito e me
machuquei. (Aproveitei-me da oportunidade de meu pai não ter se comunicado com
ninguém além de mim)
Agora era torcer para meus pais não encontrarem Alan nem seus pais. Se
não estaria tudo perdido.
- Eu sempre soube que aquela menina não tinha juízo. Eu avisei. Disse
meu pai.
- Tudo resultado da falta de disciplina que seu pais não aplicam. Vou
ligar para os pais dessa menina. Onde já se viu? Eles vão ter que pagar o
tratamento.
- Pai! Não faz isso. Eles nem tem dinheiro. Como iriam pagar?
- Muito bem, não ligarei. Até por que não quero mais nenhum envolvimento
com aqueles doidos. E você mocinha, está proibida de sequer dirigir a palavra
aquela menina. Ela quase te matou.
- Mas, pai. Ela é minha melhor amiga. Disse eu em lágrimas.
- Mas, ela só mudou você! Desde que se conheceram você não é mais a
mesma. E mais, se você me desobedecer, você será mandada para outra escola,
longe de seus outros amigos. Se sequer desconfiar que falou com ela, eu
cumprirei com minha palavra.
Naquele momento percebi a burrada que fiz, doeu ver meu pai acusando
Julie e seus pais daquela forma, e o tanto que li tentou me fazer falar a
verdade e no fim só aceitou por eu insistir tanto e ela não me deixaria na mão.
Mas, se eu dissesse a verdade agora, ainda assim meu pai acharia uma
forma de culpar Li apenas para me afastar dela. E se eu o desobedecesse,
perderia a chance de ficar com Alan e os meus amigos. Mas, e Li? Bem, eu
precisava ser racional, e também não era grave, eu daria um jeito.
Meu pai era um homem super conservador comigo e minha mãe, e ultimamente
tinha se tornado ainda mais duro, mas não achava que era por mal, a única coisa
que começou a me incomodar era o fato dele se achar bom em tudo e me cobrar o
mesmo. Ele era um advogado muito bom, e agora estava ganhando mais dinheiro, o
que fazia com que ele se sentisse ainda maior.
Eu achei que seria fácil me aproximar de Julie, até tentei, eu ao menos
tive a chance de explicar o ocorrido. E Li me olhava confusa por eu a evitar
tanto, meu pai me contratou uma espécie de segurança que me monitorava o tempo
todo. Ele estava mesmo empenhado.
Levei Alan em casa, falei que ele não podia falar nada sobre como eu
tinha me machucado, mas não expliquei o por quê não.
Então Alan pediu minha mão em namoro e finalmente eramos oficialmente
namorados.
Mas, e Julie? O que eu fiz à nossa amizade que foi tão difícil de se
construir? Que tipo de imagem construí da pessoa que mais me ajudou para os
meus pais?
O que seria de nossa amizade?
E aí gente! O que acharam desse segundo capítulo? O que será das nossas
meninas? Você faria o mesmo que Sofi? Você agiria diferente?
Não deixe de comentar aí embaixo que achou para nos motivar a continuar
escrevendo com mais entusiasmo.
(Cap. 3 no próximo sábado)
Por: Di Savi