Cap. 3: Orgulho
Pelo resto daquele ano meu pai foi duríssimo e me manteve
sempre sobre vigilância. Dizia ele que eu estava no ensino médio e precisava de
concentração máxima.
Andar com pessoas bem ajuizadas e que não me levassem por
um mau caminho. Mas, o que ele não sabia até ali, é que Li, apesar de sua
loucura, era essa pessoa. Li me ajudava a ser alguém muito melhor, e até me
ajudaria a tomar boas decisões, se eu a ouvisse.
Um dia, consegui driblar aquele armário que ficava no meu
pé e falar com Li:
- Li.
- Sofi! Tudo bem? O que está acontecendo?
Contei tudo para Li.
- Não acredito, Sofi. E você simplesmente escolheu esconder
a verdade? Agora os seus pais têm uma visão ruim não só de mim, mas também injustiçaram
meus pais. Sofi... Isso está ficando muito sério. Era para ser algo simples:
Você contava a verdade e tomava castigo como todo mundo e fim.
Mas, isso está prejudicando muita gente e olha pra isso, a
gente está conversando escondida porque não podemos andar juntas, é como se eu
fosse uma doença.
Sabe, você foi uma das minhas melhores amigas...
- Fui? Não sou mais?
- Sabe, Sofi. Eu cedi ao seu pedido por amar você como uma
irmã.
Não importa o que falassem de mim, mas, quando se trata de
meus pais, eu não aceito que ninguém fale deles sem conhecer a história deles e
tudo que passaram para me criar. E seu pai, outro dia, passou de carro e meu
pai foi cumprimentá-lo e seu João ligou o carro e quase passa por cima do meu
pai. Isso já foi longe demais. Não somos marginais.
Aquela altura, eu já estava muito tensa sem saber o que
fazer:
- Eu sei que tudo está muito complicado, mas tenta se pôr
no nosso lugar: Meu pai estudou e tem se tornado cada dia um advogado muito
importante. Ele sempre me criou para ser a melhor. Ele só está preocupado
comigo.
- Seu pai é perfeito para você, certo? O meu também é para
mim. E mais, eu sei que a versão da história que seu pai conhece não é a real,
mas, se fosse meu pai, aquele homem que não sabe educar a filha, como seu João
mesmo fala, meu pai saberia que eu estava mentindo, porque ele presta atenção
na filha, e mais, se ele não percebesse, ele jamais julgaria os seus pais e nem
mesmo a você. Ele simplesmente consideraria isso um acidente.
- Li, essa discussão está ficando séria. Eu não posso
voltar a falar com você em público, mas quero ser sua amiga.
- Escondidas, certo? Por que você jamais poderá ser vista
com alguém como eu. Eu quero ser sua amiga, eu amo você, você é uma irmã que
nunca tive, e é exatamente por isso que quero que fale a verdade aos seus pais.
- Li, eu não vou fazer isso. Eu não vou correr o risco por
uma...
- Você não vai correr o risco por uma amizade comigo certo?
Olha, se eu quero que você fale a verdade, é simplesmente para que você tire
esse peso que sei que está na sua consciência.
Mas, também, não deixarei de ser sua amiga nunca, eu sempre
me lembrarei dos nossos dias juntas, do quanto me ajudou. Mas, serei sua amiga
de longe, esperando o retorno da minha amiga Sofi, porque não acredito que essa
garota covarde que está na minha frente seja a Sofi. Enfim, estarei sempre aqui
esperando você tomar sua decisão. Esperando o seu retorno.
- Julie, você não pode ficar tão chateada assim, afinal se
seus pais são tão incríveis assim, porque você precisou trabalhar para comprar
um celular para você? Por que não estudaram para terem dinheiro e te dar uma
vida digna?
- Você sabe que eles me deram um no meu aniversário e que
nunca quiseram que eu trabalhasse cedo, mas eu tomei essa decisão. Agora eu até
tomei coragem e contei para eles. No fim do ano usarei todo meu dinheiro para
dar um presente para eles. Por que é algo que eu quero fazer. E mais, dinheiro
não é tudo, nunca fomos ricos, mas sempre fomos felizes por ter um ao outro.
Aprendemos a dar valor a sentimentos e não a coisas. Enfim, não posso mudar o
seu modo de pensar, me dói saber que pensa isso deles, mas não posso fazer
nada. Eu amo você Sofi. Me procura, estarei sempre aqui por você.
- Li...
Julie foi embora, e eu fiquei ali sem acreditar que eu
disse aquilo para ela. Como? Por que? Na tentativa de me justificar, eu acusei
pessoas que tinham as almas mais belas que eu já havia visto em toda minha vida.
Mas, era tarde, ela já havia ido e eu não ia desdizer tudo
o que já havia dito. Sem contar que eu era uma pessoa complicada de estabelecer
vínculos. Já conhecia meus colegas daquela escola muito bem, e tinha medo de
ser obrigada a mudar de escola e ter que começar tudo novamente. Tal
possibilidade me assustava.
Mas, por esse meu medo bobo, por medo de perder minha segurança e
estabilidade, medo de sair da minha zona de conforto, medo de encarar meu pai e
dizer a verdade, medo de desconstruir a imagem de filha exemplar que meus pais
formaram de mim, preferi me afastar, mesmo sentindo falta dela, me afastei. Era
meu futuro que estava em jogo, não iria deixar nada atrapalhar.
A férias chegaram e enfim natal, ano novo e todas aquelas
festas. Antes do fim das aulas, Li e eu sempre nos olhávamos de longe, eu soube
até que ela me defendia secretamente se alguém falava de mim, e ainda
aconselhava Alan sobre o que eu gostava ou não. Ela sempre foi a minha amiga, e eu
sempre covarde como ela mesmo havia me dito.
Mas, foi quase no fim de janeiro que Li resolveu revelar a
surpresa que tinha para os pais:
- Pai, mãe! Como vocês são os melhores pais do mundo, todo
o meu dinheiro que juntei trabalhando vai para algo que eu vim preparando para
vocês.
- O que seria, filha?
- Ah, pai! Calma.
- Conta filha. Disse Ana, impaciente.
- Darei uma viagem de lua-de-mel para as praias de
Fortaleza, já que é aniversário de casamento de vocês. Na verdade, é só um
pouco do que vocês merecem. Quando eu for mais velha, terá muito mais.
Carlos e Ana olharam emocionado para a filha. E Ana disse:
- Filha, você não precisa fazer isso. Compre algo que você
goste e que você precise.
- Mãe, o que eu preciso é que vocês façam essa viagem que
vocês merecem e que eu queria dar a muito tempo.
- Filha, se você faz questão, nós iremos. Não é querida.
Vamos fazer esse esforço. Disse Carlos, em tom irônico. Vamos aproveitar que
agora temos esse carro, mesmo que velhinho e vamos.
Mais tarde:
- Querido, não deveríamos, coitadinha.
- Querida, você sabe a quanto tempo Li deseja nos dá essa
viagem? Não sabemos o futuro. Devemos aproveitar cada momento. Ela está tendo a
chance de realizar um dos desejos de sua vida que é nos dá essa viagem.
- Você tem razão. Temos uma filha e tanto.
Enfim chegou o dia da viagem:
- Li, filha, você ficará na casa da Giovanna, sua mãe disse
que não há problema que fique lá, já que logo começam as aulas.
- Certo, mãe.
- Filha, juízo. Vê se aproveita a volta as aulas e acerta
as coisas com Sofi. Ela é uma boa menina, só está um pouco confusa.
- Eu sei, pai. Não se preocupe.
- Nós amamos você, seja uma boa menina nos dias que
estivermos fora assim como é quando estamos olhando. Ok?
- Não se preocupe mãe.
- Nós amamos você, filha. Muito obrigada pelo presente.
Amamos você.
Eu gostava bastante dos pais de Julie, e quando eu estava
na pracinha, os vi passando e dei tchauzinho para eles.
Quem diria, eles já tinham até um carro, mesmo que não
fosse novo, era deles. Eles eram tão esforçados dentro de todas as suas
limitações que eu nem sei como eu fui tão cruel dizendo aquilo para Li.
Mas, enfim, eu não ia mais me aproximar de Li, não correria
o risco.
Os pais de Li, sempre mandavam fotos das férias para Li e
sempre falavam com a filha.
As aulas haviam voltado e o dia da viagem de volta dos pais
de Julie enfim chegou.
Ligaram para a filha antes de entrar no carro ligaram, e
disseram que a amavam novamente. Eles diziam aquilo o tempo todo. Era chato,
mas, ao mesmo tempo era lindo.
- Ligamos assim que chegarmos, filha.
- Ok! Eu amo vocês.
Enfim o dia da chegada dos pais de Li chegou, e o telefone
de Luana, mãe da Gio, toca. Li corre ansiosa corre esperando que sejam os seus
pais. Mas, algo que ninguém realmente contava havia acontecido.
Li entra na sala e vê Luana sentada no sofá ainda tremendo e pálida:
- O que houve tia Lu. Disse Li.
- Querida, eu preciso que você seja forte agora. Era do
hospital. Eles fizeram tudo que podiam... mas, o acidente... Luana mal conseguia concluir a frase.
- Não... Não... Isso é mentira. Não pode ser.
Naquele momento, Julie sentiu suas vistas escurecerem e
suas pernas falharem. Quando acordou estava no hospital.
- Você está melhor, querida? Disse Luana.
- Eu acho que fisicamente sim. Tia, quero vê-los. Eu quero
cuidar de tudo, quero ficar até o último momento quando forem... quando eles...
quando forem enterrá-los. Dizia Julie em lágrimas.
- Eu ficarei ao seu lado, querida.
- A culpa foi minha, não foi? Eu não deveria ter pago essa
viagem.
- Querida, nunca fale isso novamente. Você realizou o sonho
de seus pais. E você foi para eles o melhor que pôde acontecer. Você é incrível.
Nada que fosse dito naquele momento poderia reconforta-la,
mas ela era forte e manteve sua força ao lado do corpo de seus pais durante
todo o velório.
Eu, como meu pai havia me proibido apenas de me aproximar
de Julie, achei tudo bem ir ao velório. Afinal, eu havia aprendido a amá-los no nosso tempo de convivência. Eu não me perdoaria se não fosse lá.
Olhei Li de longe, em seus olhos a tristeza era visível.
Parecia até que todo o brilho havia desaparecido.
Todos iam cumprimentá-la, e tudo o que eu quera era pegá-la pela mão e leva-la até nosso lugar favorito. Conversar sobre garotas que não gostávamos e sobre garotos.
Queria que ela soubesse que eu estava lá por ela.
Mas, eu fui tão fraca, eu tive medo, eu não quis ir até ela por medo de ela pensar que eu só estava me aproximando por pena.
Sei que na
situação meus pais entenderiam, mas, eu fui fraca, covarde, a pior pessoa
naquele momento, fui orgulhosa também.
Li, me olhou como se esperasse apenas que eu abrisse o caminho
para que tudo voltasse a ser como era. Ao invés disso, fiquei ali sentada até o
fim, e depois fui embora. Eu a magoei ainda mais.
Ela só precisava da amiga dos fins de tarde no lago, e eu
fui apenas a Sofi de quando nos vimos pela primeira vez no corredor da escola.
O próximo cap. é o quatro e sai no próximo sábado.
Não deixem de comentar aqui no blog o que acharam.
Por: Di Savi

MDS.... Chorei. Que barra
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