sábado, 17 de setembro de 2016

Julie, você merece!

Cap.2: Amigas! 

O tempo foi passando e fomos crescendo. Acabei me tornando muito próxima de Julie.
Ainda me pergunto se ofereci uma amizade saudável para ela. Já que Li era espontânea e sempre sorridente, principalmente nas horas inconvenientes.
Li sorria de você, mesmo que você tivesse tomado o maior tombo da sua vida e sofresse traumatismo craniano. Li, por vezes sorria da própria desgraça.
Eu me questionava: Como alguém pode ser tão idiota a tal ponto? Li conseguia.
E eu, Sofi, com meu hábito de achar que sabia tudo sobre tudo e todos, achei que Julie precisava de alguns ajustes, então resolvi mudá-la.
Meu pai me ensinava sempre a ser culta e me comportar da melhor forma, em todos os lugares e nunca ficar rindo de coisas idiotas, pois se o fizesse seria tão idiota quanto os outros. Eu deveria estar sempre a um passo dos outros.
Inclusive, meu pai me aconselhou a adotá-la como um projeto para saber até onde iam as minhas habilidades. Papai sempre apostou muito em mim, só que isso vinha carregado de muitas cobranças. 
Papai me amava, e queria que eu fosse a melhor em tudo. Então, me colocou nas melhores escolas que podia pagar, e exigia que eu me dedicasse ao máximo, e isso acabou se tornando um hábito em minha vida.
Me tornei extremamente perfeccionista. Algumas vezes, olhando do meu presente para esse meu passado, eu era extremamente prepotente. E quando Julie ia mal em suas avaliações, eu acreditava piamente que aquilo devia-se a falta de disciplina e concentração dela, e ainda da falta de dedicação. Ou seja, Julie merecia.
Muito bem, sem mais delongas, vamos para nossos dias de escola.
- Oi, Sofiiii.
- Olá, Julie.
- Tenho uma notícia muito boa. Adivinha.
- Não faço ideia.
- Tirei sete na prova de matemática.
-Julie, eu tirei dez. Acho que a prova estava muito fácil.
- Mas, eu estudei tanto. Acho que a prova não era tão fácil assim. Disse Julie entristecida.
Acabei tirando, naquele momento, os méritos por algo que ela tanto se esforçou e veio tão entusiasmada me contar.
Mas, uma característica em Julie, era não magoar seus amigos, enfrentava professores quando discordava de um determinado assunto, mas nunca de sua opinião formada, apenas de fatos que para mim eram inquestionáveis, já que estava nos livros de história, caramba. Para não enfrentar os amigos, preferia se magoar e deixar que dissessem o que queria.
Na tentativa de ajudar Julie com suas notas e fazer dela meu projeto de fracasso para sucesso, fiz uma proposta:
- Julie, todos os dias após as aulas, eu vou para minha casa, e lá vou estudar todo o conteúdo passado e ver mais coisas na internet. Por que não faz o mesmo?
- Sofi, você não se diverte nunca?
- Não é disso que estamos falando. Falei isso ajustando meus óculos. Aquilo me incomodou, de certa forma.
- Bem, eu já faço algo parecido. Mas, não consigo entender muita coisa. Me desconcentro facilmente na escola, imagina em casa sem professor.
- Precisa ter foco. Além do mais, acho que não se esforça tanto. Impossível! Se se esforçasse suas notas seriam melhores.
- Como eu disse, faço algo parecido, mas não tenho internet em casa. E não tenho computador.
- Vamos fazer o seguinte, vamos estudar na biblioteca. Vou falar com meus pais e você fala com os seus. Quero saber se não vamos melhorar suas notas e seu comportamento inadequado.
E assim foi, todos os dias por meses obriguei Li a ficar na biblioteca comigo.
Foram dias bem intensos para duas garotas de treze anos.
Conhecemos Luana, mão de Giovanna, nossa colega. Luana trabalhava na biblioteca e sempre nos observava.
Enfim, chegaram as primeiras provas depois de termos começado a estudar na biblioteca. Quando terminou tudo, eu estava certa de que ela iria muito bem.
Fui para a biblioteca esperar Li para saber os resultados, já que ela meio que fugiu de mim na escola.
- Julie, me conta como foi nas provas. Aposto que desde que começou a se esforçar verdadeiramente, elas subiram muito.
Li me olhou triste e começou a chorar. Me assustei um pouco e pedi que ela parasse.
- Não precisa ficar chorando. Chorar é coisa de gente fraca. Ainda mais em público. Falei isso em tom de brincadeira.
- Sabe, Sofi, eu realmente admiro você e seu esforço por mim. Eu a considero minha melhor amiga. Eu agradeço tudo que fez, mas minhas notas foram tão baixas ou medianas como sempre. Não importa o que eu faça, não passo de um mísero sete, seis, ou até menos.
Continuou:
- Eu, apesar de você duvidar, realmente me esforçava antes, dentro dos meus limites de materiais. Eu olhava livros e algumas vezes vinha para a biblioteca, mas você duvidou de mim e parecia tão empenhada em me ajudar que resolvi aceitar.
Eu tenho um sonho de melhorar na escola, de alcançar o sucesso através de muito esforço, sonho em continuar nessa escola com a bolsa que consegui. Mas está muito complicado. Toda noite, antes de dormir, fico contando histórias na minha cabeça de meninas que eram como eu e conseguiram vencer suas limitações, mas eu não consigo. Não vou desistir, eu nunca desisto, mas, você não precisa gastar seu tempo comigo.
Eu nunca tinha visto Li daquela maneira, ela abriu a boca e falou tudo tão seriamente, ela nunca tinha se defendido daquela maneira. Li que sempre sorria de si, estava ali chorando. Me senti envergonhada por duvidar dela. Eu não sabia o que fazer, Li estava chorando de cabeça baixa e eu do outro lado da mesa olhando para ela sem reação, quando de repente Luana, que era psicopedagoga se aproximou e tentou acalmar Li. Perguntou o que havia acontecido e contamos tudo. Ela pegou em sua mão e a levou consigo me pedindo para aguardar um pouco. Logo depois saíram as duas.
Li não me contou nada, fez um mistério terrível.
Um bom tempo passou desde o ocorrido e enfim descobri o objetivo da conversa.
Li passou por exames e foi diagnosticada com déficit de atenção.
Eis os motivos da desatenção da menina. Quem diria? Outro tapa no meio da minha cara. Mas como eu poderia saber?
Desde que Julie começou seus tratamentos, houve uma evolução significativa em suas notas. Mas, nunca deixou seu comportamento super animado e extrovertido.
Comecei a acreditar que aquilo era parte de sua personalidade, e isso ainda não me agradava. Ela tinha que começar a se comportar mais como uma mocinha.
Estávamos crescendo, e não podia continuar daquele jeito.
Os anos foram passando. Mesmo ainda diferente, Li e eu nos tornamos grandes amigas.
Eu conheci os pais de Julie, aprendi sobre sua família, e ela conheceu os meus pais.
Julie e eu sempre estudávamos juntas. Todos os trabalhos em dupla, já nem tentavam mais fazer comigo ou com ela, pois todos sabíamos que erámos inseparáveis.
Acredito que eu tenha ajudado muito Julie, mas era impossível não reconhecer o quanto ela me ajudou.
Vê-la lutar por seus sonhos por mais inalcançáveis que fosse, me ensinava que nem tudo era fácil para todos.
Ver Li, há dois anos, descobrir que o que tinha não era falta de interesse, ou falta de disciplina por pura falta de educação, e sim por ter déficit de atenção, me ensinou a não criar um pré-julgamento, antes de saber de tudo o que realmente acontecia. Quer dizer, eu ainda fazia isso. Mas, ela sempre estava ali me passando os ensinamentos de seu pai.
Saiamos todos os dias da aula juntas, estudávamos, mas sempre no fim do dia, íamos correndo para o nosso lugar preferido que ficava em um lago.
Lá conversávamos sobre tudo.
O quanto amávamos nossos pais, falávamos mal de algumas garotas que nos irritavam (Alana), e falávamos dos garotos (eu falava de Alan), afinal já tínhamos quinze anos.
Comentávamos dos dias difíceis de Li na escola, e o quanto tinha melhorado.
- Sofi. Estava aqui pensando: Acho que Alan gosta de você.
- V- você acha?
- Tenho certeza.
- Mas por que ele não fala comigo?
- Não sei, talvez seja tímido. E seu pai chega a dar medo até em mim que sou sua amiga.
- Mas, acho que meu pai não se importaria. Eu conheço Alan há anos. Mas se ele quiser me namorar vai ter que chegar em mim.
- E se ele chegar? Você vai aceitar?
- Sim. Por que não?
- Acho que deveria falar com seus pais antes.
- Eu já tenho quinze anos, não preciso disso.
- Você deveria. Seu pai já acha que sou uma péssima companhia por eu ser assim meio louca e ter amigos meninos. Ele já falou que meu pai não é duro o suficiente comigo. E mais, ele acha que o motivo de você ter se tornado tão mais independente, é culpa minha. Se bem que não vejo problema nenhum nessa última parte.
- Bem, acho que ele só quer meu bem. E realmente a última parte é culpa sua.
Rimos daquilo. Nossas tardes eram muito prazerosas, e nossas conversas muito gostosa.
Àquela altura eu já tinha celular que meus pais me deram, todos os nossos colegas também tinham, e Li não tinha, pois seus pais não tinha condições suficiente.
E por tal motivo, alguns à esnobavam, e um dia vi alguém falar mal dela por ser pobre e pela casa que morava ser tão simples. Falavam de seus pais se vestirem de maneira tão simples nas reuniões do colégio, enquanto os outros iam tão bem arrumados.
Eu ouvi, mas não tive coragem de falar nada. Nesse exato momento, Li chegou, fiquei envergonhada, pois ela sempre me defendia quando necessário, e eu estava ali muda.
- Li! Disseram todos assustados. Na rodinha estavam Milena, nossa colega de classe, Alana (Lider da fofoca toda), Valentina, outra colega, e Giovanna que estava tão calada quanto eu.
- Por que vocês gostam tanto de julgar as pessoas pelo que elas têm ou a forma que se vestem? Saibam que apesar de não sermos ricos, somos muito honestos e aprendemos a amar as pessoas pelo que são.
Acima de tudo, meus pais me amam muito, são realmente as melhores pessoas que conheço. Se vocês querem falar de mim, podem falar, mas não falem deles.
Li saiu, Giovanna e eu corremos atrás dela. Ela havia realmente ficado triste e pela segunda vez, á vi chorar.
Julie amava os pais, e valorizava sentimentos acima de coisas.
E essa foi a segunda lição, que mais tarde eu viria a aprender com ela. Mas, não ainda.
- Sofi, Gio. Por que vocês estavam com elas? Vocês também pensam igual?
- Não! Respondemos ambas assustadas.
Com um sorriso amoroso que consegui ver apenas em pouquíssimas pessoas, Li nos olhou e disse:
- Sabe, não tem problema. Eu ainda não havia contado. Mas todas as tarde, eu tenho ido trabalhar na casa da minha vizinha cuidando do bebê dela para conseguir dinheiro para comprar um celular para ninguém julgar meus pais, e é por isso que não tenho ido estudar com você essa semana. Mas eu gostaria que fosse surpresa.

Finalmente chegou agosto, e era o aniversário de Julie de dezesseis anos e de repente quando Li chegou em casa no fim do dia:
- Surpresa! Disseram os pais dela com uma caixa pequena na mão.
- Não acredito, falou Li escondendo também a pequena caixa que tinha nas mãos.
Os pais dela haviam dado um duro para comprar um celular que a filha tanto desejava. Mas, Li havia se dado também um aparelho.
Li demonstrou infinita gratidão aos pais, declarou em lágrimas o quanto os amava.
No dia seguinte me contou o que havia acontecido:
- Mas, o que fará com o que você comprou?
- Vou vender e fazer uma coisa por eles que há muito tempo gostaria de fazer. Não o que exatamente gostaria, mas uma amostra.
- Que seria?
- Isso é surpresa.
- Mas, ainda bem que você tem ideia do que fazer, já que trabalhou escondido de seus pais, seria um sacrifício jogado fora.
Os pais de Li não queriam que ela trabalhasse fora ainda, pois gostariam que ela se dedicasse exclusivamente aos seus estudos, então Li trabalhava escondido, e sua vizinha a ajudou guardando segredo. Mas, era por uma boa causa e isso não vinha prejudicando Li.
Um belo dia Alan me chamou para dar uma volta após as aulas, mas, disse que eu precisava falar com meus pais antes para não haver problemas.
Por um instante senti medo de eles não deixarem, e mais, eu já estava grandinha, e não deixaria meus pais estragarem a oportunidade que eu tanto havia esperado. Então apenas fingi ligar.
Levei Alan para onde Li e eu costumava ir quando ela não trabalhava e ainda íamos no fim de semana.
Mesmo muito nervosa por estar com o menino que eu amava, eu me sentia segura, pois já o conhecia há anos.
Passamos a tarde por lá e conversamos muito, até que de repente:
- Sofi.
- Alan! Olhei para Alan que se aproximara de mim timidamente.
- Você sabia que gosto muito de você?
- Sim! Somos amigos, não é? Fiz-me de desentendida.
- Gosto de outra maneira também.
- Engraçado, achei que gostasse de Alana.
Alan riu entendendo meu sarcasmo.
Aproximou-se ainda mais de mim, e finalmente aconteceu... Não acreditei! Finalmente meu primeiro beijo!
Coração a mil. Mas, naquele exato momento nos desequilibramos e caímos do galho que estávamos sentados que atravessava o pequeno lago.
Alan caiu na água, e eu acabei caindo sobre um galho e fraturei meu braço.
Alan entrou em pânico, e me levou ao médico, mas precisávamos de algum adulto. Chamamos a mãe de Alan que nos ajudou, porém ainda precisávamos contar para meus pais.

E agora? Como eu poderia contar para meus pais o que havia acontecido?
Que eu havia saído sem permissão, e ainda com um menino Era para tudo dar certo, meus pais chegariam no fim do dia e eu estaria em casa tranquilamente.
Seria meu fim? O que eu diria? A verdade? Certamente que não.
Já sabia a quem recorrer. Liguei para minha melhor amiga sem pensar duas vezes.
- “Você acha uma boa ideia? Estou disposta a te ajudar, mas mentir não é a melhor saída."
- Poxa, Li. Me ajuda. Você sabe que eu estava proibida de ir ao lago, e ainda mais assim, com um menino.
Sempre disposta a fazer tudo por seus amigos, Julie concordou.
Mas, antes não tivesse concordado com minha ideia.
- Filha! O que houve com você? Perguntou minha mãe preocupada.
- Eu estava estudando com Julie, e eu... ela...
- Fale filha! Disse meu pai alterado.
- Ela me chamou para irmos ao parque. Mas, lá ela subiu em um banco, você sabe com ela é. E pulou em cima de mim. Eu caí de mal jeito e me machuquei. (Aproveitei-me da oportunidade de meu pai não ter se comunicado com ninguém além de mim)
Agora era torcer para meus pais não encontrarem Alan nem seus pais. Se não estaria tudo perdido.
- Eu sempre soube que aquela menina não tinha juízo. Eu avisei. Disse meu pai.
- Tudo resultado da falta de disciplina que seu pais não aplicam. Vou ligar para os pais dessa menina. Onde já se viu? Eles vão ter que pagar o tratamento.
- Pai! Não faz isso. Eles nem tem dinheiro. Como iriam pagar?
- Muito bem, não ligarei. Até por que não quero mais nenhum envolvimento com aqueles doidos. E você mocinha, está proibida de sequer dirigir a palavra aquela menina. Ela quase te matou.
- Mas, pai. Ela é minha melhor amiga. Disse eu em lágrimas.
- Mas, ela só mudou você! Desde que se conheceram você não é mais a mesma. E mais, se você me desobedecer, você será mandada para outra escola, longe de seus outros amigos. Se sequer desconfiar que falou com ela, eu cumprirei com minha palavra.
Naquele momento percebi a burrada que fiz, doeu ver meu pai acusando Julie e seus pais daquela forma, e o tanto que li tentou me fazer falar a verdade e no fim só aceitou por eu insistir tanto e ela não me deixaria na mão.
Mas, se eu dissesse a verdade agora, ainda assim meu pai acharia uma forma de culpar Li apenas para me afastar dela. E se eu o desobedecesse, perderia a chance de ficar com Alan e os meus amigos. Mas, e Li? Bem, eu precisava ser racional, e também não era grave, eu daria um jeito.
Meu pai era um homem super conservador comigo e minha mãe, e ultimamente tinha se tornado ainda mais duro, mas não achava que era por mal, a única coisa que começou a me incomodar era o fato dele se achar bom em tudo e me cobrar o mesmo. Ele era um advogado muito bom, e agora estava ganhando mais dinheiro, o que fazia com que ele se sentisse ainda maior.
Eu achei que seria fácil me aproximar de Julie, até tentei, eu ao menos tive a chance de explicar o ocorrido. E Li me olhava confusa por eu a evitar tanto, meu pai me contratou uma espécie de segurança que me monitorava o tempo todo. Ele estava mesmo empenhado.
Levei Alan em casa, falei que ele não podia falar nada sobre como eu tinha me machucado, mas não expliquei o por quê não.
Então Alan pediu minha mão em namoro e finalmente eramos oficialmente namorados.
Mas, e Julie? O que eu fiz à nossa amizade que foi tão difícil de se construir? Que tipo de imagem construí da pessoa que mais me ajudou para os meus pais?
O que seria de nossa amizade?



E aí gente! O que acharam desse segundo capítulo? O que será das nossas meninas? Você faria o mesmo que Sofi? Você agiria diferente?
Não deixe de comentar aí embaixo que achou para nos motivar a continuar escrevendo com mais entusiasmo. 
(Cap. 3 no próximo sábado)

Por: Di Savi


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